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"Jogos de uma memória sentida", texto crítico por Luciara Ribeiro

Adentrar as obras de Shai Andrade é buscar, em detalhes, a voz, o sentido, e a conexão que só a fotografia tem a capacidade de nos revelar. Com delicadeza e escuta, a artista constrói tempos não vividos dentro de corpos alheios. A partir de uma relação intensa com objetos coletados em imaginários familiares, em esforços de reconstruir os rastros de sua história ancestral imersa nas vidas das mulheres de sua família, a artista se recompõe como corpo que empresta sua fisicalidade para a imagem. Entre as tias, avós, mãe, bisavós, tataravós, ela se torna mais uma. Mediada por caminhos de escuta atenta, Shai Andrade cria sua própria pulsão vital e dá sentido a uma existência compartilhada.

Falar de relações afetivas por via de imagens familiares não é nenhuma novidade. No entanto, o trabalho de Shai Andrade não se limita apenas a dialogar com fotografias de família. Ela nos lança em um jogo que utiliza o suporte fotográfico para criar simbologias diversas, como as cartas de um tarot interminável: habitado por poucas presenças, mas permeado por muitas ausências. Cada carta, uma pessoa, uma expressão, um segredo, uma reflexão. Cartas preenchidas e cartas vazias. Cartas abertas e cartas escondidas. Abre-se uma carta para a memória, para um tempo que nem mesmo a memória mais distante foi capaz de capturá-lo, apreendê-lo e arrebatá-lo para o presente. Uma carta segredo. Uma carta de silêncio. Um espaço de lastro no tempo. Beatriz Nascimento, em seu filme Ori, declara: “Ó paz infinita poder fazer elos de ligação numa história fragmentada.”

Ter a vida registrada e documentada pelas lentes de uma câmera ainda se faz raridade na vida de muitas pessoas, principalmente, se elas forem negras. Sem imagens deixadas pelo tempo, as maneiras de criá-las no hoje se atualizam. E Shai Andrade, se lança nesse jogo. Uma tataravó que cresceu na roça plantando tabaco e que fumava as folhas secas no cachimbo. A bisa, uma mãe de santo que teve seu legado ancestral, sua herança,  perdidos após a morte. A avó, mulher que costura e faz de seu quarto um espaço de acolhimento para as mulheres vizinhas. A mãe, arrancando as raízes douradas de uma espada de Ogum, a filha mais velha, a referência. Tia Sheila, aquela que lida com a delicadeza e a tensão, com o peso e a alegria de viver. Tia Shirley, de auto estima inabalável e que se concentra na busca por sua beleza, mesmo que atravessada pelas perversidades do racismo. Todas elas nascidas em Candeias, cidade do recôncavo da Bahia. Todas elas unidas por um elo inseparável da ancestralidade.

Pergunto-me há muito tempo: Qual o limite dessa conexão atemporal através da fotografia? Qual o impacto dela em nossos corpos? Seria ela capaz de nos fazer ver as faces que guardamos sem perceber? São questões inquietantes que nos aproximam do universo de Shai Andrade. Na reconstrução de si em um jogo infinito, desejo de ver para existir numa busca por reconstruir os fragmentos esfacelados no tempo, a artista se lança no desejo de costurar ranhuras, fechar fendas, conter tensões. O vazio da vida. Um oco que intercepta com a centralidade da galeria, preenchida por objetos-relicários: charutos, búzios, agulhas, plantas, etc. Cada objeto, um relicário. Cada foto, uma vida. Talvez a busca por se preencher tornou a artista um captador de novas personalidades, aparências, seres interiores. A obra de Shai Andrade é a procura de um caminho, esse preenchimento pela fotografia.

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